Cientistas disseram nesta quarta-feira que podem estar perto de
descobrirem a misteriosa "matéria escura", uma substância que forma mais
de um quarto do Universo, mas que nunca foi vista.
Uma identificação final do que forma o enigmático material abriria
áreas totalmente novas de pesquisa, incluindo a possibilidade de
múltiplos universos e outras dimensões, disseram físicos.
Uma equipe internacional no centro de pesquisa Cern, de Genebra,
disse ter detectado o que poderia ser o primeiro traço físico deixado
pela matéria escura enquanto estudava raios cósmicos gravados a bordo da
Estação Espacial Internacional nos últimos 18 meses.
Eles encontraram um aumento de partículas pósitron, que podem ter
sido criadas por matéria escura em decomposição, uma substância tão
central ao Universo que estabelece a posição de planetas e estrelas.
O chefe do projeto que construiu o detector gigante de partículas AMS
do Cern, Samuel Ting, disse em um seminário lotado que mais dados eram
necessários para garantir que a matéria escura foi avistada.
"Nos próximos meses, o AMS será capaz de nos dizer de forma
conclusiva se esses pósitrons são um sinal da matéria escura, ou se eles
têm alguma outra origem", disse.
Ting afirmou que também era possível que os aumentos viessem de
pulsares, rotações de estrelas de nêutron que emitem uma radiação
pulsante.
Mas a física do Cern Pauline Gagnon disse à Reuters, depois de ouvir
Ting, que a precisão do AMS poderia tornar possível "ter um primeiro
vislumbre da matéria escura muito em breve".
"Isso seria incrível, como descobrir um novo continente. Realmente
abriria a porta para um mundo totalmente novo", disse Gagnon.
A matéria escura, que cerca galáxias em todo o Universo, é invisível
porque não reflete a luz. Sua presença foi estabelecida pela força
gravitacional que exerce sobre planetas e estrelas.
Na semana passada, o telescópio Planck, da Agência Espacial Europeia,
revelou dados logo depois do Big Bang 13,8 bilhões de anos atrás,
mostrando que a misteriosa substância formava 26,8 por cento da
densidade do Universo, mais do que se pensava.
Matéria normal, as galáxias e os planetas que podem ser vistos por
astrônomos com telescópios cada vez mais poderosos, formam apenas 4,9
por cento. O restante é uma "energia escura" ainda mais enigmática, que
se acredita esteja impulsionando a expansão do Universo.
Ting descreveu a matéria escura como "um dos mistérios mais
importantes da física hoje". Seus traços são procurados não apenas
através do AMS, sigla em inglês para Espectrômetro Magnético Alfa, mas
em laboratórios na Terra e abaixo da terra.
(Reportagem de Robert Evans)
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